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O Senhor do Monte Alverne

A mesa da confraria da irmandade de São Francisco de Assis reunira-se, pela segunda vez, na casa da respectiva Ordem, a fim de deliberar a respeito de uma imagem do Senhor do Monte Alverne, que ia ser colocada no altar-mor da referida igreja.

Tomando parte na assembléia brasileiros e portugueses, por um natural impulso de patriotismo, queriam os primeiros que a imagem fosse esculpida aqui, os segundos, em Portugal.

Ainda dessa vez não foi possível acordo, ficando o caso para ser discutido em outra assembléia.

Eis senão quando, à casa da Ordem foi bater um peregrino, desconhecido na cidade e que, à mingua de recurso, pedia pousada por uma noite. Atendido pelo encarregado, foi-lhe destinado um aposento no porão, onde ele depressa se acomodou, fechando a porta a chave.

Não trazia nenhuma bagagem, um simples bornal sequer, nada.

No outro dia, ninguém viu o estranho personagem. O quarto que lhe deram estava; com a porta e janelas fechadas. Não quiseram incomodar aquele pobre velhinho de barbas de neve: talvez estivesse muito cansado.

Ao segundo dia, porém, o quarto continuava na mesma situação. Gomo, desde que chegara, não o viram sair ao menos uma vez, nem ouviram o mínimo ruído lá dentro, suspeitaram que ele houvesse adoecido, a ponto de não poder erguer-se do leito, ou mesmo que tivesse morrido.

Já inquietos, então, bateram à porta. Silêncio absoluto. Tornaram a bater, com violência, depois. Nenhum rumor, nenhum sinal de vida. Forçaram a porta: estava fechada a chave.

Certos já de um sombrio acontecimento, resolveram arrombá-la. Para fazê-lo, chamaram a polícia e testemunhas e, ao primeiro golpe da machado que um soldado vibrara, a fechadura saltou.

A escuridão no interior era quase completa. Abriram imediatamente as janelas: o misterioso peregrino havia desaparecido e, em seu lugar, uma imagem do Senhor do Monte Alverne, de tamanho natural, pregado à cruz, encheu de pasmo e de deslumbramento a todos os presentes, tal a sua maravilhosa perfeição.

Acreditou-se logo que o peregrino não era senão um santo, que realizara aquele milagre.

A nova correu célere pela cidade. E de todos os pontos, numa verdadeira romaria, vinha gente ver a imagem, que poucos dias depois foi transportada, com grande solenidade, para a igreja de São Francisco de Assis, onde até hoje se acha, no respectivo altar-mor.